(Resenha feita para a cadeira de Com. em Lingua Portuguesa I)
Enquanto eu percorria com os olhos as barraquinhas da feira do livro de Porto Alegre este ano, percebi que havia chegado a hora de amadurecer. Minhas mãos já seguravam o último livro da série “O diário da princesa”, de Meg Cabot, quando meus olhos se fixaram em um livro de nome “Ensaio sobre a Cegueira”. Eu soube na hora que deveria levar comigo para casa muito mais do que a história de uma menina adolescente enfrentando os “perigos” da escola; precisava levar um livro que falasse de vida, que me fizesse pensar, um livro que contasse coisas que eu jamais imaginaria ler.
Comprei o livro do Saramago e comecei a lê-lo assim que cheguei em casa. Já havia ouvido sobre o filme baseado no “Ensaio sobre a Cegueira”, mas não tinha coragem de ir assisti-lo por causa dos comentários que rolavam por aí. “É um filme extremamente forte e desagradável”; “Senti náuseas na cena do estupro coletivo”; “O diretor teve que cortar várias cenas para o filme não ficar extremamente chocante”. Mas digo a você, leitor, e a quem mais me perguntar, que esse livro realmente abriu meus olhos (sem uso intencional de trocadilhos).
A história conta sobre uma epidemia de cegueira “branca” (assim chamada devido ao fato de as pessoas, quando cegavam, enxergarem tudo envolto por uma luz branca, como se estivessem mergulhadas em um mar de leite) que se alastrou por uma cidade – não uma cidade fantasiosa, mas, sim, uma cidade que assusta pela proximidade com a nossa realidade. O surto de cegueira começa atingindo poucas pessoas, que são postas em quarentena em um manicômio desativado. Porém, em pouco o tempo a situação se torna insustentável: o número de vítimas da cegueira só aumenta (o que acaba superlotando o manicômio), o abastecimento para os cegos em quarentena se torna precário e as brigas por comida e poder não tardam a acontecer. E assim o livro vai torturando o leitor, fazendo com que ele se sinta desconfortável como se estivesse junto com aquelas pessoas que nem sequer enxergam como suas vidas vão desabando. Isso é uma característica maravilhosa da narrativa de Saramago; ele faz com que o leitor se sinta cego. Na verdade, é muito mais do que isso: faz com que ele tenha medo de perder o rumo, medo de admitir que, se uma epidemia de cegueira ocorresse de verdade, talvez não houvesse realmente esperança de a humanidade continuar vivendo de modo racional.
O próprio Saramago disse que “Ensaio sobre a cegueira” é um livro brutal e violento com o qual ele quer que o leitor sofra tanto quanto ele ao escrever a história. Em suas próprias palavras, ele diz: “São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." De fato, o autor se mostra muito pessimista quanto à humanidade. Isso se percebe pelas situações que ele cria se baseando nos tristes fatos do mundo real - soldados disparam contra os cegos sem razões graves (o que lembra, em especial aos brasileiros, dos policiais que atiram contra garotos favelados no Rio de Janeiro sem nenhuma explicação), muitos cegos são extremamente egoístas (aí aparece o famoso ditado “cada um por si” que caracteriza nossa sociedade capitalista) e as medidas adotadas pelo governo insensível com o povo que terminam por ser inúteis e catastróficas (há algo mais real do que o cinismo político?) – e por desumanizar, quase que por completo, as personagens – ninguém tem nome, todos são chamados pelo autor por coisas que os definem (“a mulher do médico”, “a rapariga dos óculos escuros”, “o velho da venda preta”).Acaba-se concluindo que as pessoas se tornam aquilo que realmente são quando não podem julgar a partir do que vêem.
Não terminei o livro ainda e também não quero me alongar muito sobre a história, mas posso dizer que talvez – meu coração pelo menos quer acreditar que há um “talvez” no livro – haja esperança, porque a mulher do médico é a única da história que ainda não cegou. Em uma passagem do livro, ela até mesmo pensa que desejaria ficar cega, para não ter que ver e registrar todo o horror da situação na qual os cegos se encontram – afinal, para que ter olhos se não se pode fazer nada para mudar algo? De certa forma, para aumentar o desespero, José Saramago torna a mulher do médico tão cega quanto os outros. Aliás, como eu havia dito antes, esse livro me abriu os olhos. Abriu meus olhos para fatos que ocorrem no nosso dia-a-dia e que não damos a mínima, como o simples ato de enxergar, de saber como é o sorriso das pessoas queridas por nós. Abriu meus olhos para a “cegueira proposital” da qual a humanidade sofre, sempre fechando os olhos e cruzando os braços diante de situações em que os outros precisam de nós, como crianças abandonadas nas ruas sem ninguém para lhes dar auxílio. Abriu meus olhos para entender que a vida realmente não é fácil e nem justa com todos – mas que ninguém escapa de ter suas próprias deficiências. Para quem ainda não leu o livro, deixo o recado: você não sabe a lição de vida que está perdendo.
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é isso aí.. demais a resenha..
ResponderExcluiracho que o saramago ia ficar feliz se lesse.. haha
as cenas pesadas do filme não são apelo.. tem um propósito.. pra mim são positivas..
não li o livro.. mas saí da sessão de cinema com um buraco na alma..
cara.. é perfeito..
poderia morrer feliz tivesse escrito uma história dessas..
abç mari